Radicais Livres promovem show de lançamento de CDs
Postado por db - o co-editor pentelho em Eventos - Realização
Só mesmo um “Herói Gladiador” pode compreender, em “Tempos de Guerra”, que “Quem lê Viaja” e assim plantar “Sementes do Amanhã”. Não entendeu. Parece discurso de político mas são, na verdade, quatro das canções que compõe o novo CD Homônimo, de autoria do grupo de rap Diga How. O lançamento do disco, gravado pelos recursos próprios dos músicos, ocorre no próximo dia 6 de novembro juntamente com outros três grupos, no Aquários Bar, São Sebastião(DF). No mesmo show, RadicaLibres, do Paranoá, lança o álbum “Atitude pro Bem” e o MC Aborígine, de Samambaia, lança sua obra “Dia e Noite. Dia Açoite. Noite Fria”. Também celebram os três lançamentos independentes os rappers Ataque Beliz (Paranoá), recente campeões representando o DF no festival nacional Rap Popular Brasileiro (RPB), organizado pela Central Única das Favelas(CUFA), no Rio. Quem paga o ingresso do show ainda ganha CD.
O evento está sendo organizado pelo coletivo de artistas Radicais Livres S/A, de São Sebastião. Neste lançamento, os MC’s Magú, John, TG e o Dj William, que compõem o Diga How, interpretam as 16 faixas com sutil crítica social e política. O CD conta com a participação do poeta do rap nacional, GOG, na música “Sujeito de Sorte”. Os vocais deixam também mensagens poéticas bem construídas sobre a importância da família, como nos sucessos “Herói Gladiador”, homenagem de Magú para seu pai David, ou mesmo na música “Sementes do Amanhã”. Outra mensagem de educação é “Quem Lê Viaja”, premiada no Festival Parque Sucupira como melhor música pelo júri popular e 5º Festival de Música Popular da Samambaia. Para Magú, “se uma faixa sensibilizar cada pessoa e ela agir com a postura correta, aí alcançamos nosso objetivo”. Detalhe interessante são os samplers (colagens de trechos de músicas) de artistas brasileiros como Milionário e José Rico, Ney Matogrosso, Bartô Galeno entre outros.
Dividem palco no show de lançamento os rappers do RadicaLibres. O grupo lança o disco “Atitude Pro Bem”, na intenção de mostrar que a periferia tem música de qualidade. Para completar, Aborígine - natural da terra - também lança sua obra. O CD vem encartado com uma revista contra as drogas. Ele trabalha com arte educação envolvendo hip hop nas escolas. Hoje multiplica suas mensagens entre os adolescentes.
Quem paga a gravação?
Todo o custeio da produção e gravação do disco foi vencido pelos próprios músicos, catando latinhas depois de cada show e economizando cachês. Segundo eles, a dificuldade financeira e não saber o “caminho das pedras” nos financiamentos públicos são barreiras para os músicos da periferia. “Nossa maior vitória é não termos envolvido gravadoras olho grande”, afirmou Magú. Diz ainda que a palavra independente já nasceu morta. Para ele, dependeram do apoio dos demais músicos e amigos da cena em tudo, colaborando para a produção.
Serviço:
Show de Lançamento dos CDs "Homônimo", "Atitude Pro Bem" e "Dia e Noite. Dia Açoite. Noite Fria" será no Aquários Bar, em São Sebastião (DF), Avenida Central nº 260, bairro São José, dia 06/11 (sexta-feira), a partir das 21h, o ingresso custa R$ 6 e você ganha um CD na entrada. www.digahow.com.br
.............................................................................por Eduardo Cabeção*#VII
Olá pessoal de muito bom gosto?
Sentiram saudades?
Estive um tempo ausente, peguei férias de penetra. Depois de tanto tempo vagando, retorno a nossa coluna semanal, e quanta coisa boa aconteceu na nossa cidade, mas por puro egoísmo da minha parte, gostaria de citar apenas aquela festa que eu mais senti falta: o SARAURADICAL. E que tempo que demorou, demorou, enfim... Retornou!
E muitos loucos não erraram o caminho, com poesias, com fantasias, com músicas, danças e encenações, levando o público a sentir aquela força que nos faz sonhar, sonhar sem limites, voltar a ser criança e brincar sem medo de errar.
O ponto culminante do espetáculo foi o desfile de fantasias, mímicos, João Canabrava¹, Irmão Metralha, Naruto, bruxas, caçadora de vampiros... O Fábio Corintiano foi de Ronaldo, mas quando ele viu os meninos do Lúxuria chegar, desistiu com medo de causar alvoroço. Ao final os melhores foram os mímicos, que não pararam de falar logo após embolsar 50 mandangos...
Logo após o desfile, uma galera de peso tomou de conta do palco. Os manos do ATAQUE BELIZ chegaram e não deixaram ninguém ficar parado, com um RaP swingado com letras suaves. Levantou até mesmos os mais tímidos.
E a grande estreia da noite nas pick-ups foi o D’j IronHands, que mandou ver, no ritmo eletrônico tunts! tunts! tunts!, fechando, com um aperto de mão, o retorno do SARAU RADICAL...
E, para encerrar a matéria, gostaria de deixar a letra e a tradução de como traduzo a minha sensação de ir ao Sarau.
ps:
Inté mais ver... Beijos pras meninas lindas que vão ao Sarau.
Born To Be Wild (Steppenwolf, 1969)²
Get your motor running
Head out on the highway
Lookin' for adventure
In whatever comes our way
Yeah, darlin', gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once and
Explode into space
I like smoke and lightning
Heavy metal thunder
Racin' with the wind
And the feeling that I'm under
Yeah, darlin', gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once and
Explode into space
Like a true nature's child
We were born, born to be wild
We can climb so high
We never want to die
Born to be wild
Born to be wild
Nascido Para Ser Selvagem
Deixe seu motor funcionando
Dirija-se para a auto-estrada
Em busca da aventura
Não importa o que aconteça em nosso caminho
Sim querida, faça isso acontecer
Pegue o mundo num abraço carinhoso
Dispare todas as suas armas ao mesmo tempo
E exploda espaço afora
Eu gosto de fumaça e relâmpago
O estrondo do trovão correndo com o vento
e o sentimento que ele provoca em mim
Sim, querida, faça isso acontecer
Pegue o mundo num abraço carinhoso
Dispare todas as suas armas ao mesmo tempo
E exploda espaço afora
Como um verdadeiro filho da natureza
Nós nascemos, nascemos para ser selvagem
podemos escalar tão alto
eu nunca quero morrer
nascido para ser selvagem
nascido para ser selvagem
*Eduardo Cabeção entrou no Porão do Rock de penetra, entrou no SarauRadical de penetra, e entrou de férias de penetra. Isso é o que ele conta. Na verdade ele entrou, de penetra, numa fria. Toda essa temporada que ele ficou sem publicar, ele passou preso na Papuda. Calma: ele não foi flagrado tentando entrar de penetra em nenhuma festa. Acontece que ele entrou no presídio de penetra e não conseguiu mais sair... Claro que o período de reclusão será descontado de sua folha de pagamento...
¹ O Penetra aproveitou que o sarau era à fantasia e foi disfarçado de Canabrava, e entrou de penetra no concurso, mas não ganhou, porque os jurados não perceberam que era uma fantasia... O Penetra nem reparou que o sarau era de graça e aberto ao público...
² Ao final do sarau, enquanto as formigas trabalhavam, a cigarrona ficava fumando cigarro e enchendo o saco com essa música, tocada no violão do Isaac... Depois de um grito do Célio "Mão de Aço" (dj IronHands) e de ser linchado pelas mulheres da organização, ele ajudou e ficou tudo bem. O lamentável foi que isso aconteceu justo na hora em que ele ia cantar "Light My Fire"... Podiam ter esperado um pouquinho mais...
*Eduardo Cabeção entrou no Porão do Rock de penetra, entrou no SarauRadical de penetra, e entrou de férias de penetra. Isso é o que ele conta. Na verdade ele entrou, de penetra, numa fria. Toda essa temporada que ele ficou sem publicar, ele passou preso na Papuda. Calma: ele não foi flagrado tentando entrar de penetra em nenhuma festa. Acontece que ele entrou no presídio de penetra e não conseguiu mais sair... Claro que o período de reclusão será descontado de sua folha de pagamento...
¹ O Penetra aproveitou que o sarau era à fantasia e foi disfarçado de Canabrava, e entrou de penetra no concurso, mas não ganhou, porque os jurados não perceberam que era uma fantasia... O Penetra nem reparou que o sarau era de graça e aberto ao público...
² Ao final do sarau, enquanto as formigas trabalhavam, a cigarrona ficava fumando cigarro e enchendo o saco com essa música, tocada no violão do Isaac... Depois de um grito do Célio "Mão de Aço" (dj IronHands) e de ser linchado pelas mulheres da organização, ele ajudou e ficou tudo bem. O lamentável foi que isso aconteceu justo na hora em que ele ia cantar "Light My Fire"... Podiam ter esperado um pouquinho mais...
Neste clima de insanidade é que me ponho a dar cabo do acontecimento do dia 9 de novembro de 1995, na cidade de Itapetinga e a loucura deve ser dividida com a devida dúvida da loucura e o bem comum só será obtido no dia em que for proclamado: “coisa de todos é coisa de ninguém”, Mas vamos adiante com esta conduta sem nexo que se chama Dossiê Itapetinga. Antes que eu me extinga, antes que venha a viger leis de silêncio na rua e no boteco, deixa eu aproximar um fato de cinco vidas e mais algumas de mais algumas que merecem o respeito que merecem. Partamos pois na viagem ao som do ConSertão, Estrela Maga dos Ciganos. Elomar. A paixão dos maestros, a loucura dos cientistas, os poetas todos, sonetistas decassílabos e livres e libertos libertinos, analfabetos e doutorados, românticos como o Azevedo ou pessimistas como Dos Anjos, como Hegel, todos os filósofos e políticos, socialistas e sociólogos, capitalistas e capitães das capitais, a lua e tudo mais está presente nesta escrita, nestes versos de vagabundo, nesta história de uma viagem, de um disparate...
De antemão... esquece...
O caso é esse mesmo. Conheci esses camaradas nas quebradas da vida. O mais antigo em minha memória é Maurício. Meu irmão! Com esse há vinte e dois anos vivo a vagabundagem que o mundo pode oferecer: mulher, cachaça, ano letivo repetido, pernada na barriga, surra de mainha, xingamento de painho, pedrada na cabeça, gravidez de mulher... casamento!! O diabo. O único movimento no qual ele não me acompanhou foi nas invasões da chácara de Aguinelo, na beira de Rio Corrente, em Santa Maria da Vitória, no Oeste brabo da Bahia. No mais...
O outro foi Alberto. Esse era besta que fazia dó. Ia pra escola fazendo o cálculo das placas dos carros. Na saída, às cinco da tarde, comprávamos um picolé ordinário numa sorveteria que ficava ao lado do aeroporto. Decididamente, não era bom o picolé, mas ele tinha três sabores e três cores e aí a gente cria que era lucro. A vaquinha tava feita. Não comprávamos nada durante o recreio; guardávamos pra quando fôssemos embora. E isso virou ritual: Alberto, Maurício, eu e Sílvio, outro colega nosso, do qual temos hoje pouca informação, íamos chupando o picolé de três sabores até o fim do muro do aeroporto, um verdadeiro símbolo de nossa infância, o intransponível muro do aeroporto cujos limites internos guardavam tantos segredos. Depois nós descartamos o picolé e achamos mais conveniente brincar de briga nas tabôas do Bairro Alegria. Foi mais de um ano nesta lida até o dia em que Maurício e Alberto melecaram-se todo de bosta de gado (ou era de gente?) numa das lutas. Aí paramos! Ficamos traumatizados! Anterior ao conhecimento dele, era costumeiro sairmos correndo, atropelando gente, em busca do “Sítio do Pica-pau Amarelo”. Após ele, entretanto, freamos a besteira e passamos a curtir a vida longe das telas retangulares. Alberto era isso. Não brigava, não xingava, não falava alto em sala, não contestava... mas depois esse menino virou um capeta neste mundo de meu Deus. Fez-me parecer um santo. Sua mãe, Dona Maria José, gente fina, fazedora de bolos inominavelmente gostosos, assistiu no natal passado a um espetáculo diabólico de Betinho, e ela, coitada!, católica legítima, praticante, apostólica, romana, tardou o passo, paralisada na alma ante o desajuste mental do menino: Albertão, bêbado, trocando as pernas, chamando cachorro de cacho, rasgava a bíblia com os dentes e gritava enfurecido: “eu cresci tendo que obedecer a esta desgraça, mas agora eu me libertei desta porra, deste caralho! Agora, liberdade disto tudo”, enquanto a mão esquerda retia um litro de 51 misturado com limão e açúcar, a típica caipirinha nordestina. Mudou bastante! Exatamente por isso o amo. Hoje em dia, na bicicleta, leva um cantil e dentro a hídrica companhia dum “coquinho”.
O outro foi Alexandre. Outro besta. Sujeitinho baixo. Só falava se perguntasse, e era na base dos monossílabos: sim, é, foi, acho, hun, hun, tá, sei...o diabo. Depois, passados os anos, permanece o mesmo. Não bebe, não fuma, não namora em pé, não nada. É uma égua. Mas eu gosto dele assim mesmo, porque a gente pirraça e ele não se importa, só faz rir das piadas. Mas foi com ele que eu pude assistir por inteiro “A vida de Bryan”, meu filme preferido. Hoje ele trabalha numa imobiliária e é amigo do namorado de Magnólia.
O outro foi Dernival. Este eu conheci na festa de aniversário de quinze anos do cachorro do meu primo Wênio. Um vagabundo daquele, bom de pegar no cabo da enxada, comemorando festinha de quinze anos. Eu tô ficando é besta mesmo. Dernival tava lá no canto, passando a mão no dentiqueiro e espiando a bagunça. Astuciando. Nesta noite, por preguiça, resolvi ficar por ali mesmo, nas Bateias. Por falta de espaço na casa de meu primo, tive o confortável convite de Dé para dormir em sua casa. Nesta noite floriu este romance lindo que até hoje perdura com a mesma força de antes. Só foi abalado uma vez esse romance. Mas esquece!! Certa noite, frio comendo o rabo de nego, fomos no “Escorrega-lá-vai-um”. Lá, como era de se esperar, dando vez à sua preferência, se alojou no cangote seboso de uma mulata senhora, ou uma senhora mulata, coroa, seus quarenta anos, fornida e festeira e pôs-se a tomar cerveja e cerveja e mais cerveja com esta dona. Eu, desassociado de suas predestinações filósofo-mulherenga, estranho aos movimentos alcoólicos da vida, mantive-me alheio ao seu devaneio e ao dela, a mulata. Lá pelas tantas, altas horas, o frio engenhando o estômago, invadindo já alma, implorei no ouvido dele:
- Dé, vamos embora, bicho. Larga essa morena aí e vamos nessa.
- Rapaz, você é doido? Uma lapa duma negona dessa, arrumada, cheia da nota, eu vou largar aí, cê é doido?! Olha o diferencial dessa mulher, Fabinho. Olha a caixa de marcha desse bicho. Isso não é brincadeira, não. Olha o fecho de mola!! Rapaz!!
- Bom, é o seguinte, eu vou descendo a ladeira, então. Vê se se arranja com essa coroa e eu vou andando por aí, devagarinho. - e foi aí que Dé soltou essa maravilha de proeza catingueira:
- Rapaz, quem tem medo de cagar não come!!
Na verdade, nem um vale nada! Nem Alexandre, nem Maurício, nem Dernival, nem o safado do Alberto. Nem eu valho nada. O caso é esse mesmo, mas nós entramos numa empreita que não foi brincadeira, não. Esta é a história deste livro. A vagabundagem.
Antes, porém, deixo fluir a aura da boaventurança e dos bons rituais aos olhos da majestosa côrte que me lê. Não me afaguem. Apedreja esta mão vil que te beija.
Confira o livro na íntegra (144 páginas) em:
DOSSIE ITAPETINGA.doc
TE PRESENTEIO COM A FÚRIA - Réplica ao texto "Todos Têm Direito À Discriminação"
Postado por db - o co-editor pentelho em Contos... Crônicas... E outras prosas..., Luiz Cláudio Sena - "O Implikant"
por Luiz Cláudio*
Há um conto do Dostoievski chamado "O Subsolo". Não será difícil, lendo-o, perceber a semelhança do que ali se diz com o que disseram Schopenhauer, Nietzsche e Freud. Sumariamente, seria o seguinte: o que nos move é a vontade. E a vontade é algo que não passa, sobrinho amado, pela razão. Brota sozinha. E se impõe. Tudo o que fazemos é fruto da vontade e tudo o que não fazemos, embora queiramos fazer, é reprimido pela razão, razão que se move em função de premissas "culturais" (perdoe o uso das maiúsculas, e de aspas, e de outros recursos estilísticos nitidamente enfadonhos).
Pois bem, se uma pessoa sente aversão pelo que quer que seja, sente-o porque ao seu ser repugna o que quer que seja. É algo pelo qual não poderemos nunca julgá-la (e, vale dizer, julgar é, por si, uma burrice). Quando a repugnância é recíproca, ou elas se afastam ou colidem. Na primeira situação, restam poupadas energias (que seriam gastas no conflito rusgante); na segunda situação, fica sempre a sensação de "não levo desaforo pra casa".
À minha natureza repugna o conflito. Dir-me-ás (em coro com Nietzsche): "És um covarde!". De fato. Sou um covarde. Componho um grupo que me dignifica: o grupo dos covardes. Há, adicione ai, uma pitada de preguiça. Um sujeito a um só tempo preguiçoso e covarde, para um preconceituoso profissional, deve se alçado à condição de verme. Ok, sou um verme. Se me movo é que sou movido. Se me arrisco num combate, é sempre por alguma força desconhecida, e menos por coragem. Combato com o bom combate. SLD!**.
Gosto de cordeiros. Gosto da harmonia dos corais. Gosto da sincronia. Gosto de afinação. Gosto de engrenagens azeitadas. Gosto das estéticas clean. Sou apolíneo. Mas, principalmente, gosto dos cordeiros. Gosto do bom andamento das coisas. Talvez porque tema as guerras, talvez porque tema a agressão. Talvez porque, no fundo, sou Deus (vide a divina maiúscula), e Deus, sabe-se, também aprecia harmonias celestiais. Mas estou convicto – Deus me perdoe – que só há harmonia onde há conflito. “Não haveria som se não houvesses o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão.” Dito isso, nem sou pacífico (embora preguiçoso e covarde), nem sou conflituoso (embora goste das harmonias celestiais). Sou Absoluto (melhor ser Absoluto que ser Deus). E ser absoluto é também admitir que só a morte trás a vida. É da natureza da harmonia o combate. É do conflito entre o arco e as cordas do violoncelo que nasce a mais majestosa das melancolias.
Dito isto, vamos ao que interessa. E o que interessa é o preconceito.
De cara, vou logo dizendo que será burrice divergir do seu pensamento (embora se possa divergir da sua aversão às maiúsculas). O que você diz está correto. Veja bem, não estou concordando movido pela preguiça ou pela covardia. Nesse caso específico – o caso do preconceito –, você foi feliz. Todo preconceito é legítimo. Ninguém pode ser julgado por repugnar isso ou aquilo. Exemplo: ninguém deve me censurar pelo fato de eu não gostar de rock. Refiro-me a um determinado tipo de Rock: aquele em que predomina o “barulho”, em prejuízo da letra. E em prejuízo, pasme, do silêncio. Deus sabe quanto gosto do silêncio (o habitat natural [sic, do Co-Editor Neopentelho, na trilha do Devana] das minhas melancolias).
E já errei muito, Devana¹, quando – arrogante até os ossos – destratei ou ignorei pessoas pelo simples fato de elas não raciocinarem com a mesma rapidez que eu, ou pelo fato de elas simplesmente serem alienadas, ou pelo fato de elas serem muito ou totalmente desprovidas de um mínimo de “cultura” (tipo: nunca leram Angústia). O tempo passa, Devana, e a gente começa a lidar com as pessoas não pelo ou em função da película cultural que as recobre, mas pelo que lhes vai lá no subsolo. A bem da verdade, não raro me afasto de pessoas de “bom subsolo”, quando a película é por demais áspera, por demais repugnante. Mas quando é possível ultrapassar a fronteira do verniz, há sempre uma boa alma do outro lado. Há sempre um humano tal qual eu, que – no fundo – quer somente a alegria do convívio.
Vamos lá: Eduardo Cabeção², por exemplo. Do número imenso de membros dos radicais, ele é a talvez aquele a quem mais reverencie. Afora o duvidoso gosto musical – o bendito barulho –, trata-se de um jovem muito amoroso, muito fácil, muito inteligente. É, para ser resumido, uma boa pessoa. Entre ele e qualquer burguês intelectual da academia de filosofia que freqüento, fico com ele. E prefiro, com ele, comer um pão com mortadela, que, com o outro, um lauto jantar. A recíproca pode não ser verdadeira. Cabeção pode conviver comigo na base do “eu te suporto, irmão!”. Fazer o quê? SLD.
Vamos lá: Daniel³, por exemplo. Daniel possui uma camada (a película a que me referi acima) generosa de verniz. É daquelas pessoas com as quais tanto faz pão com mortadela como lautos jantares. Muito provavelmente tenhamos divergências sobre este ou aquele ponto. Mas – falo por mim, não por ele, que dele não tenho procuração – predomina em nós convergência.
Mas, Devana, se o subsolo me repugnar, estarei a postos para a guerra. E vou desferir tudo que há de pior em mim contra o ser pestilento. Quando percebo, Devana, que o humano – na pessoa – é vil, armo-me. E atiro. Fi-lo nesta semana que estive em Brasília. Compunha o grupo de trabalho do qual participei uma figura (havia 40 pessoas) cujo subsolo era/é desprezível, mesquinho, mínimo, mísero, ínfimo e pífio (quisera pudesse ter palavras para expressar!). Enquanto lá estive, usei das armas de que disponho (Deus nos perdoe a ironia), e fui desferindo golpes e mais golpes. Presenteei-a com a cólera.
Pessoas ali presentes, muitíssimo menos inteligentes que ela, foram contempladas com meu cuidado, com meu zelo e toda ternura, meiguice e carinho.
É preciso ficar atento ao subsolo. É lá que está a verdade. Mágico é afinar as almas pelo que nelas vai de bondoso.
Dir-me-ás: "Ora, Tio, o teu conceito de bondade e de subsolo e de verniz e de película e de harmonia e de cordeiros é tudo coisa de maricas”. Pois bem, exercite seu direito de ter preconceito aos meus preconceitos. É um direito. Mas reproduzo suas palavras: a luta contra o preconceito é muito justa. o ideal humanista de igualdade é lindo. mas nosso pensamento ainda tem muito o que amadurecer, e não podemos ser tão simplistas a ponto de ignorar conflitos morais que até um tosco como eu consegue pensar. mas até lá, vamos viver. temos muito ainda por fazer... sempre respeitando as liberdades individuais da forma mais ampla possível" (sic).
E vou logo discordando: nosso pensamento não tem nada que amadurecer. A gente é o que é. Nascemos perfeitos. Nem evoluímos nem involuímos. Somos o que somos, para o bem e para o mal. A alma evolui e amadurece. Os pensamentos nada são. São só pensamentos. E o “ideal humanista de igualdade" não é lindo. O ideal humanista de igualdade só pode ser lindo se a ele nos referirmos como sendo aquele conjunto de possibilidades existenciais (que os regimes capitalistas dão, mas que o mesmo regime retira; Valei-me, Daniel).
Afora isso, não fosse a distância, e eu gostaria muitíssimo se os radicais (os confrades) pudessem se reunir (tipo: toda primeira quarta do mês) para discutir os grandes temas: amor, justiça, liberdade, verdade, sentido, existência, morte, capital, cidadania, indivíduo, universo, busca, alcance, medo, covardia, coragem, ternura, meiguice e carinho.
E, por fim, penso que melhor que preconceito (refiro-me ao termo) é falar em “critérios de seleção”, ou ainda em “seletividade”, ou em “preferências”. Preconceber não me soe adequado. É como parir sem parir.
Espero que textos como estes que você publica sejam cada vez mais usuais no blog. E que os Radicais estejam sempre a postos para irem às RAÍZES dos conceitos. E que o bom debate se dê. E que o bom combate idem.
Deus te abençoe.
Tio Krháudynho
*Kráudinho é DJ por hobby, filósofo de formação e besta por vocação. Como se não bastasse, ainda é IMPLIKANT. Apesar de não gostar de rock barulhento, ele nos presenteia com a fúria de uma banda de metal bem barulhenta (trampa). Ele é um semi-analfabeto ao contrário: sabe escrever tudo com maestria, menos o próprio nome (Luiz Cláudio). Ele acha que será capaz de romper com a hegemonia dos co-editores do blogue, mas não vai conseguir. Ele aguarda ansiosamente pela tréplica do artigo, e fica dando F5 a cada 5 minutos. Para ler outros textos dele, clique aqui, aqui, ou aqui. ** "Se Lasque Doido" (SLD). A sigla, que, à primeira vista, poderia se referir a mais um grupo musical pasteurizado de irmãos pouco talentosos e canastrões, é, na verdade, um bordão, um grito de guerra ou até, dependendo do contexto, uma evocação mística "nonsense" dos Radicais Livres, parecida, guardadas as devidas proporções, à antológica e atávica saudação franciscana "Paz e Bem", mas invertida, ao anverso e ateia... [Do outro Co-editor, vítima da inveja dos que não sabem o que é ter uma musculatura avantajada na região abdominal... Ímpios!...] ¹ Sobrinho dele e co-editor do blogue, que escreveu o texto ao qual ele faz réplica, ou seja, esse cara que está escrevendo agora. ² Conhecido como "O Penetra", Eduardo Cabeção, além de cabeção, é cabação, e toca numa banda de nome Recalcitrantes. já colaborou com "O Implikant", na edição sobre o Nietzsche, e colaborou com o implikante dirigindo Pálio Dagomé até a feira dos importados, o que rendeu à ele e ao co-editor pentelho o valioso jogo do poderoso chefão. ³ Co-editor não-pentelho do blogue. responsável por manter a lucidez e o bom senso, e eventualmente converter letras maiúsculas em minúsculas, pontos em vírgulas e acentos "circunflexos" em "tiu", colocar aspas nos lugares certos, destacar as partes importantes do texto em negrito, citar as fontes no final do texto, colocar links de referência, colocar o título em maiúsculas, colocar os substantivos coletivos em minúsculas, enfim, tudo aquilo que os colaboradores e o co-editor pentelho poderiam fazer mas não fazem, dando trabalho à ele. daniel é um ávido devorador de livros, e devido a esse hábito sua barriga está ficando ligeiramente saliente. a não ser, é claro, que ele esteja grávido da Neilma. |
todos têm direito à discriminação
Postado por db - o co-editor pentelho em Contos... Crônicas... E outras prosas..., Devana Babu
não há escândalo algum no que eu estou dizendo, e nem sequer motivo para alarde. o escândalo está nas pessoas que enganam a si a aos outros, fingindo não ter nenhum tipo de preconceito dentro de si. mentira! livrem-se do pudor e da covardia e admitam isso. não se curvem a ele, nem tampouco fujam, mas tentem compreendê-lo. afinal de contas, para todos os efeitos, você, no mínimo, tem preconceito em relação às pessoas preconceituosas, o que vem a dar na mesma. você quer essa pessoa na cadeia. você quer que essa pessoa seja escorraçada da sociedade, banida dos círculos sociais, quer que ela prove do próprio veneno, e que ela perca o pseudostatus de ser humano. ou não: você é do tipo benevolente, love and peace. então você quer que essa pessoa seja reabilitada, que ela aprenda a conviver pacificamente, que ela deixe os seus princípios inferiores de lado e aceite o seu ideal de vida, que ela se torne mais civilizada, que se converta, que ela pare de raciocinar e apenas diga sim aos vaticínios do pensamento moderno, aceitando a igualdade como uma verdade absoluta. ou seja: essa pessoa tem que ser igual a você, e não como ela é. isso também é preconceito.
outro que causa escândalo também é aquele que tenta inferiorizar o outro ser humano por causa das suas características. aquele que faz isso me enoja e não merece ser chamado de um verdadeiro preconceituoso. este é apenas um arrogante fútil e oportunista. eu discrimino esse tipo de gente. está fora do clube. fuck you, bastard! entre esses estão os malditos nazistas, os vermes escravagistas, os maníacos colonizadores, os (cusp!) americanos e etc. essas são pessoas que usam o preconceito de forma errada, muitas vezes para tirar vantagem sobre essas pessoas. aposto que o hitler amava os judeus, mas massacrar milhões de suas famílias era muito estratégico para ele, para dar prosseguimento ao seu império ególatra sem sentido. e não duvido nada que os portugueses sempre se amarraram em um negão. mas precisavam de sua força e maestria no trabalho, coisas que eles não tinham, pois eram preguiçosos e desajeitados, mas desajeitados que os índios. mas para sorte deles, eles tinha carabinas. mas, sincero ou não, o preconceito deles é, esse sim, politicamente incorreto.
mas também há o preconceito politicamente correto, e como há. por exemplo, vai dizer que você não sente uma pontada aguda no peito quando ouve funk? eu sinto. é uma dor terrível. vá em qualquer lugar, pergunte a qualquer pessoa. ninguém gosta de funk. nem mesmo os funqueiros. ou até gostam, mas tem vergonha de admitir, pela consciência da ruindade dos ruídos rufantes que fazem. por exemplo: se você estiver em uma roda de pessoas com pose de intelectual, e entre eles houver um funqueiro, e o assunto debandar para o funk, obviamente com os posudos intelectuais e não preconceituosos esculhambando de todas as formas com o ritmo, o funqueiro logo se esquivará. “bem, assim, eu gosto de funk, mas não desses funks vagabundos, só gosto de mc leozinho e tal...”. como se mc leozinho fosse algum gênio da música. o fato é que ele usa isso como subterfúgio para não se sentir tão inferiorizado. claro que quando ele estiver na roda de funkeiros ele vai encher a boca e dizer: “gaguega, acabei de baixar o novo funk da mc jane!”. mas independente dos funkeiros, os não funkeiros atacam cruelmente o funk. refinamento musical? sim. e preconceito também. mesmo um cara que se atreva a não atacar o funk não será capaz de defendê-lo. o funk é indefensável. e não venha me dizer que é neutro. a não ser que você seja demasiado covarde. outro exemplo notável também são os emos. já reparou que ninguém se julga emo? "ah, só porque eu ouço fresno, nxzero, faço franja com chapinha e falo que nem menininha não quer dizer que eu seja emo, tá, sua boba!" realmente não. vc pode ser só um membro do luxúria (nada contra eles).
mas uma coisa é eu odiar o funk (ou os emos), maldizer seu estilo de vida pouco edificante ou acusá-los de efêmeros e até de acéfalos. outra coisa totalmente diferente é eu querer matá-los ou pegá-los como escravos. o que não quer dizer, também, que eu tenha que aceitá-los como amigos no orkut ou publicar seus textos no meu blog. eles que se lasquem para lá, e eu que me lasque aqui. seja feliz do seu jeito.
certo dia passou no jornal que inventaram uma rede social só para pessoas “bonitas”. obviamente tratando isso como um verdadeiro absurdo. a primeira reação, a mais óbvia nos dias de hoje, é a de rejeição da ideia. “minino, que absurdo”! mas vamos parar para refletir um pouco. porque isso leva a uma série de reflexões muito interessantes, que mostram que o tema é muito mais complexo do que sugerem os nosso livros de sociologia e filosofia humanista. quer dizer, a pessoa não tem o direito de eleger seus padrões de beleza? a beleza é um padrão altamente subjetivo, embora fortemente influenciado pelo meio. quando uma pessoa cria uma rede social que só admite pessoas bonitas, quer dizer que ela está julgando quais pessoas parecem bonitas para ela, e excluindo as outras. isso também pode querer dizer que ele ache os negros e os amarelos horríveis, e que o site dela só tenha gente ariana, de preferência albina. por um lado isso é horrível. mas por outro, será que alguém pode forçá-la a admitir essas pessoas? então ela deve criar uma rede aberta ou não criar nenhuma? vamos mais além: e se eu criar uma rede social chamada “só roqueiros, funkeiros dêem o fora!”. alguém vai se importar com isso? não. claro, não negligenciemos os fatos. o que ficou claro até agora é que existem duas correntes preconceituosas maiores, ou dois motivos principais para discriminar uma pessoa: físicos e mentais. entenda-se como físicos aquilo que concerne ao corpo e a genética, à fisiologia e à anatomia, e mentais aquilo que concerne à ideias. as ideias, por mais cabeça dura que uma pessoa seja, podem mudar a qualquer momento, desde que a pessoa queira. mesmo que a sociedade ou as circunstâncias ou a vida tenham alguma parcela, a culpa ainda á da pessoa. então se uma pessoa é tosca, a culpa é dela. se ele é funkeira, a culpa é dela. se ela fala besteira em um artigo de milhares de caracteres, a culpa é dela. mas e se ela for preta? bem, aí a culpa não é dela.” ah, então já que isso responde tudo, eu podia encerrar o artigo por aqui, né? não. infelizmente, essa constatação não faz senão suscitar mais dúvidas.
um funkeiro vai ao programa do márcio garcia. o canastrão sorridente pergunta ao rapaz que tipo de mulher ele gosta. o funqueiro fala: ah, eu gosto de garotas loiras, sorridentes e simpáticas, e que não sejam muito baixinhas...”. e se ele tivesse dito: “gosto de garotas loiras simpáticas e que não sejam muito negras”? pareceria meio redundante, porque não é muito normal ver uma loira negra, mas também soaria altamente grosseiro e preconceituoso. era capaz de o mvbill esquecer a paz e ir dar um murro na boca do falastrão. mas será que o cara não tem esse direito? ele é obrigado a gostar de todas as características de todas as etnias ou de reprimir seu gosto estético para sempre? isso parece meio imaturo. talvez haja uma certa generalização na “regra”. porque uma coisa é não dar emprego a uma pessoa por causa da cor, e outra é não querer ter filhos com ela. burro seria eu se não quisesse, mas será que pode existir uma lei contra a burrice?
mas vá lá. digamos que todos tenham compreendido que gosto é igual a nariz e que a discriminação seja inerente ao espírito humano. isso me garante o direito de falar mal dos grupos que eu discrimino? ou eu devo guardar minhas opiniões para mim? E a liberdade de expressão (deixa eu falar, filha da p%¨@!)? e se eu quiser escrever um artigo sobre o jeito afetado e falso dos homossexuais? e se eu quiser dizer que a religião africana não tem nenhum fundamento? e se eu quiser dizer que a música indiana tem uma melodia desagradável? eu estaria discriminando um grupo étnico? estaria sendo um desgraçado-boçal-infeliz? ou apenas um preconceituoso consciente?
enfim, o que percebemos é que temos que conviver com os mais diversos tipos de pessoas pacificamente, isso inclui respeitar os diversos tipos de preconceitos existentes. assim, ninguém é obrigado a andar com um homossexual se achar ele chato, e os neonazistas (tremo de falar isso) tem o direito de não gostar de negros, homossexuais, latinos nem de ninguém que não seja retardado e branco como eles. o que a moral tem que estabelecer é que todo mundo tem o direito de odiar quem quiser, mas não o de maltratar essas pessoas, ou agredi-las, ou ferir sua moral, pois é possível ser antagonista sem ferir a moral de ninguém, e se não se consegue fazer isso, significa que não se tem argumento real para se pensar de determinada maneira. e a teoria já nasce fracassada.
infelizmente essa novela não acaba aqui. considerando que tais premissas sejam largamente aceitas pela sociedade, e que isso abra uma série de precedentes, e que a polícia correta proclame o direito universal ao preconceito, será que isso seria benéfico para a sociedade? talvez sim, talvez não. de um lado veríamos cada vez mais apartheid. de diversos grupos. muita gente seria excluída do processo mundial. muita gente diria, aos prantos: “o que aconteceu com a sociedade! todo mundo separado! que horror!” mas isso já parte de algumas premissas erradas. primeiro a do chorão: “só porque ele quer um mundo unido e sem fronteiras, nenhum inferno abaixo de nós e acima só o céu, quer dizer que todo mundo deva querer a mesma coisa?” segunda: alguém é obrigado a depender de alguém? quer dizer, considerando a discriminação dos negros pelos brancos, os negros precisam do aval dos brancos para serem felizes? a gente não pode simplesmente abandoná-los? ou simplesmente dominar o mundo?
a luta contra o preconceito é muito justa. o ideal humanista de igualdade é lindo. mas nosso pensamento ainda tem muito o que amadurecer, e não podemos ser tão simplistas a ponto de ignorar conflitos morais que até um tosco como eu consegue pensar. mas até lá, vamos viver. temos muito ainda por fazer... sempre respeitando as liberdades individuais da forma mais ampla possível.
viva a liberdade. viva a individualidade. viva o preconceito!
d.b. é preconceituoso e escreveu tudo em minúsculas por puro preconceito com as maiúsculas. d.b. não tem mais que corrigir as minúsculas do texto porque descobriu um recurso novo no word. é só ir em formatar, maiúsculas e minúsculas e "tcharans"! bobo, não? d.b., o próprio. |
Trapizongas, Pergaminhos Modernos e Livros Analógicos
Postado por db - o co-editor pentelho em Contos... Crônicas... E outras prosas..., Devana Babu
são quarenta e um minutos. estou assistindo ao observatório da imprensa. acabei de ligar a tevê, na verdade. acabo de chegar da casa do júlio, onde eu, o dono da casa, meu pai e isaac discutíamos o destino. peguei o bonde andando. o programa havia começado há pouco, mas um tema predominava. em freqüências de 60 MHz, as informações jorravam pelo tubo televisivo, e uma enxurrada de hipocrisia e intolerância inundavam o ambiente.
explico-me: estavam noticiando o “lançamento” do livro digital. o livro digital, ou melhor, leitor digital (calma: não é a pessoa que lê que é digital; é um aparelho que lê arquivos digitais) já existe há algum tempo, mas só agora chegou ao brasil. em poucos segundos de transmissão, já deu pra ver qual era a linha da discussão: intolerância total contra a novidade. claro, em alguns minutos, pude ver que a intolerência partia apenas do apresentador, que chamava esta e outras novidades de "trapizongas", e que os demais participantes do debate, salvas as resalvas, tinham uma mentalidade bastante aberta à novidade. mas não quero que esse texto se torne um ataque pessoal a este homem da opinião, que, sejamos justos, faz um programa muito bom, e que traz sempre temas pertinentes, com discussões muito bem feitas, e informações maravilhosas, especialmente para quem se liga em jornalismo, informação e tal. este ataque (é um ataque!) se direciona a uma mentalidade geral que se instaura na nossa sociedade conservadora. o que não me impede, logicamente, de usá-lo como jesus cristo, e crucificá-lo durante todo o meu texto, a título de exemplo. isso porque suas frases caquéticas ainda ecoam pela minha jovem cabecinha, e muitas coisas estão engasgadas aqui. tenho que falar delas. elas estão explodindo na minha cabeça. notem, apressadinhos: esse é um confronto de ideias, de ideias específicas. não vão sair por aí dizendo que eu sou um inimigo do observatório da imprensa, que eu condeno o apresentador e todo o seu pensamento ou algo do gênero. não se trata disso. ele é bom. faz críticas legais. e acompanhou uma boa parte da história da imprensa no país. ele é uma história viva. mas que ele falou um monte de babaquices ingênuas e tolas, isso ele falou. quer dizer, só porque uma pessoa é um gênio, não quer dizer que ele não seja um idiota, e só porque ela é respeitável não quer dizer que ela não possa ser um babaca. assim foi com o apresentador do referido programa. estou falando dele como “apresentador” porque acabei de procurar o nome dele no google e não achei. acho que é porque estou com muita pressa pra escrever logo. achei, sim, o site do programa. acabo de descobrir que o site não vem do programa, mas o contrário. isso é bizarro, porque, pelo que eu vi o sr. apresentador falando, achei que o programa tinha surgido de um pergaminho. minha mãe acabou de acordar e me mandou dormir... mas eu não consigo... você deve estar pensando: esse cara só enrola, não vai direto ao assunto... esse texto é uma afronta ao jornalismo... ele devia lavar a boca antes de falar no sr. apresentador, um ilustre jornalista experto na arte do relato... ele nem sequer se informa sobre o nome do cara, não tem compromisso com a informação... mas quer saber? dane-se. não tenho a menor pretensão de escrever um texto jornalístico. e se eu quiser escrever um, eu escrevo, mas garanto que vai ser bem mais paia.
agora eu mudei de canal e coloquei no oito... de cara, uma pergunta um tanto quanto clássica: “a música de ontem e a música de hoje” (imaginem aqui um falsete bem debochado). o que me lembra que a minha revolta é contra algo muito maior do que a resistência contra a leitura digital: minha revolta é contra a senilidade, contra esse “antigamente era melhor” que a gente vê por aí.
ora, o sr apresentador atacava ferozmente a criação do leitor digital. vamos aos argumentos:

pra começar, ele se perguntava, com toda a frescura que deus deu no mundo: (imagine aqui outro falsete agudo e bem debochado) “será mesmo que o rolar de páginas da (escarro) internet poderá um dia substituir o virar de páginas do livro, a textura das folhas, o cheiro...”. esse cara lê o livro ou faz outra coisa? acho que ele interpretou mal o significado de “bibliofilia”. ele fala como se ler um livro comum fosse sexo, e ler um livro digital fosse masturbação... provavelmente ele não falaria com tanta propriedade sobre uma mulher. note: não estou fazendo um ataque pessoal a ele (que admiro). estou apenas ridicularizando seus argumentos através de uma comparação inusitada e depreciativa. idéias... claro, você também pode estar pensando: isso não passa de literatura barata, de polêmica superficial... mas eu também não tenho a menor intenção de fazer deste mais um texto literário, cheio de delicadezas e nuances... nem misturá-lo ao de gênios como machado de assis, edgar allan poe ou dostoievski... não quero me misturar. esses gênios da raça, há muito tempo atrás, se destacaram por estar a frente do seu tempo... muitos tiveram mesmo que morrer para ser reconhecidos...
aí vem um senhor me falar do cheiro do livro... livros, meu caro, não têm nada a ver com o cheiro. claro que o cheiro de mingau dos livros velhos é agradável, e nos traz informação de que coisa boa está por vir... mas isso é só uma coisa com a qual nos acostumamos. eu também adoro folhear as páginas de um livro... mas isso não me impede de adorar passar o dedo pela barra de rolagem do rato, e deslizá-la suavemente, vendo as folhas brancas (que nunca sujam) escorregarem pela tela... são dois prazeres diferentes e intensos. não se trata, em absoluto, de substituição. esse é o primeiro erro dos regressistas fanáticos. ninguém é obrigado a deixar de ler um livro convencional só porque surgiu uma novidade. quem quiser ler um “analógico”, leia. quem quiser ler um digital, idem. o tempo e as leis de mercado do sistema capitalista tratarão de popularizar aquele que for mais aceito pela maioria. democracia é isso: a maioria manda, mesmo que esteja errada. caso contrário, viveríamos uma aristocracia.
esses caras tratam a novidade como se fosse o fim do mundo, e não um processo natural da evolução. ora, não nos esqueçamos de que, antigamente, os textos eram escritos nas paredes... e que depois evoluíram para uns pergaminhos chatos e compridos, que você ia desenrolando, parecido com papel higiênico... até um dia alguém encadernar e ver que é bem melhor... até o gutenberg inventar a prensa e fazer centenas deles de uma vez... imagino esse senhor... ele tem idade suficiente para ter acompanhado de perto a invenção da tipografia... imagino-o agora resmungando pelas ruas da europa... “isso é uma afronta à história... livros reproduzidos em massa? mas cadê a alma dos calígrafos, que, com esmero, reproduziam palavra por palavra do livro... página por página... o livro vai perder sua identidade... vai se tornar um produto qualquer”. ou ainda, quando inventaram o livro encadernado: “a gente vai perder aquele prazer de desenrolar aquele texto corrediço e sem essa frescura de (escarro) páginas...”. hoje, milhares de anos depois, paradoxalmente, estamos voltando à folha corrediça, com o advento da internet e, especialmente, dos blogues. olhe esse blogue que você está lendo agora: ele não tem páginas... estaríamos voltando aos pergaminhos? estaríamos evoluindo para os pergaminhos modernos? o mundo evolui em forma de espiral... a gente está sempre voltando para o mesmo ponto, mas sempre num patamar superior. o mais importante de tudo é que não se pode deter a evolução. e não há motivo para se amar o passado, porque ele também já foi uma novoiade. estávamos falando justamente sobre isso ontem, na casa do júlio (agora já são meio dia do dia seguinte ao do início do texto. fui forçado a dormir às três da manhã, não sem ler um conto do poe antes, em livro analógico, lógico. acabo de terminar todas as minhas tarefas domésticas e voltei a escrever): paulo apedeuta apareceu por lá, sugerindo que a gente colocasse uns telões em praça pública e exibisse rocks antigos, para a junventude conhecer. “paulinho, quem é, nessa cidade, abaixo de 15 anos, que conhece beatles? niguém. eu juro de pés juntos! quer valer aposta? lá no cruzeiro...” dizia ele, defendendo a idéia. papai comprou a idéia e de imediato criou um nome: “já tenho até o nome do projeto: velhas novidades...”. agora reparemos: um dia, os beatles foram apenas quatro posers que faziam uma música barulhenta e inadequada, falando de coisas imorais como liberdade sexual e amor livre... e umas letras ridículas, como “gire e grite...”. eram só uma modinha passageira... apenas penteados... hoje, meio século depois, é um pecado não conhecer beatles. beatles é a base de toda a música moderna. os compositores do clássico “twist and shout”. o tropicalismo vai ser sempre um sgt. peppers pós baiano (valei-me, lobão!). mas os mesmos que ouvem e veneram beatles dizem que a música não é mais como antigamente, que hoje em dia não há mas aquela criatividade, a mesma verve... “bons tempos...”, dizem eles. seria melhor, então, que tivéssemos estagnado na música tribal... ou que nem tivéssemos inventado a música, pois onde já se viu uma pessoa interromper suas tarefas para com a tribo e a sobrevivência para se dedicar a uma coisa tão lúdica... melhor seria, talvez, que nem tivéssemos perdido tempo com a escrita. os tempos mudam, o tempo todo...
mas voltando ao livro digital, que ainda não desceu goela abaixo. os regressistas defendem, ainda, que o jeito mais seguro de preservar as informações é o livro analógico. mas o livro analógico pode rasgar, molhar ou pegar fogo. em todos esses casos, já era... já o livro digital... também! ele pode quebrar, dar pau, ou explodir... mas nesse caso você não perde suas raridades. porque o livro digital não passa de códigos, códigos binários, amontoados de bits, que podem se reconstituir em qualquer lugar, da mesma forma, com a mesma cor, os mesmos pixels... tudo igual. para começar, existe uma coisa chamada cartão de memória. essa coisa já é bem comum no nosso cotidiano. Nós a usamos nas máquinas digitais, celulares e afins. o livro digital também tem isso. isso quer dizer que, mesmo que você quebre seu leitor, você vai ter as informações guardadas no cartão. e se acontecer alguma desgraça com o seu cartão, se ele sumir ou você deixar ele cair no vaso, você ainda pode baixar ele outra vez ou acessá-lo de outro lugar. o livro digital ainda não permite o compartilhamento de arquivos, mas tenho fé na pirataria e nos hackers, e no neoliberalismo, que, através da competição, vai atrair novas marcas e melhoras no produto. isso quer dizer que não vão mais haver livros raros. vão haver becapes... eu passei por uma experiência uma vez: eu tinha cerca de 10 gigabaites de música no meu computador. até que o computador deu um daqueles tiltes homéricos. apagou geral. não sei se tinha algo haver com os 532 virus que o parasitavam. não teve outra: nigel chan, meu irmão, mago dos computadores, teve que formatá-lo. o que quer dizer que eu perdi minhas estimadas músicas. por sorte, dotado de um agudo espírito socialista, eu sempre fiz questão de compartilhar todos os meus arquivos, e espalhá-los pelo mundo. muita gente tem mania de não passar seus arquivos para ninguém, como se o pendraive fosse roubar o espírito das músicas. mas eu não tenho esse ranço da era dos discos físicos. logo depois de formatado o computador, eu só precisei descobrir com quais dos meus amigos estariam os meus valiosos álbuns. assim, em menos de um mês, eu tinha todos eles de volta, inclusive algumas “raridades”, como o primeiro disco de raul seixas, “raulzito e os panteras”, em mp3, o disco da banda utopia, pré-mamonas assassinas, e o primeiro EP do evanescence, que hoje já não é tão raro, mas continua excelente. as músicas continuavam as mesmas, até os arranhões de alguns cds que eu copiei pelo windows media player, as imagens das capas em jpeg, etc. hoje, eu tenho 34 gigas. mas, que eu saiba, ninguém nunca recuperou alguns livros raros que estavam na biblioteca de alexandria...
vamos deixar de ser bestas, gente. o mais importante, no fundo, são as ideias, as palavras, a conexão entre elas, a maestria com que elas são pintadas sobre a tela, não importando se o suporte é uma tela digital, uma parede, um pergaminho ou um livro de capa dura em papel bíblia foleado a ouro... pois, seja lá onde for, dom casmurro continuará sendo um clássico, e uma obra genial, capitu continuará com seus olhos oblíquos e dissimulados, a dúvida e polêmica do “traiu ou não traiu” continuará por aí, seja numa conferência na unb ou num fórum do orkut. e é aí que reparamos: por mais mudanças que aconteçam, e são naturais, certas coisas não mudam...
claro que ainda tem um monte de coisas travadas na garganta, e eu nem cheguei a falar dobre a economia de papel, mas eu já tou cansado desse texto, e ainda tenho que corrigir esse troço, e tenho que terminar a capa do DVD “radicais summer hits”. depois vou ler um pouco, em livro analógico, porque eu acho um saco ler em livro digital... RA RA RA RA RA RA!
*d.b não sabe escrever textos jornalísticos, e por isso inventa desculpas esfarrapadas pra se justificar. este texto deu um trabalho gigante pra corrigir. isso porque o word é um saco, e coloca, automaticamente, letras maiúsculas nas palavras. mas este texto segue o novo padrão gramatical vanguardista e libertário, e como o leitor deve ter notado, esse texto não tem letras maiúsculas. então, a correção não era para colocar maiúsculas e sim minúsculas. que fique registrado: é a primeira correção desse tipo na história. o novo padrão gramátical foi criado por d.b como três objetivos: romper com as antigas estruturas falidas da gramática, servir como justificativa de d.b. para sua preguiça de apertar shift toda hora e pirraçar o co-editor daniel, que fica agoniado de ver o texto sem uma letra maiúscula sequer (assim como o próprio d.b., que no entanto resiste à própria ojeriza só por marra). contando com d.b., o movimento pró-minúsculas já tem uma pessoa. d.b., o próprio, que fala de si mesmo na terceira pessoa, como se ninguém soubesse que ele tá falando de si mesmo... |
EPÍLOGO

("Livros não estão mortos - Eles só estão se tornando digitais. Cinco séculos após Gutenberg, Jeff Bezos, da Amazon, está apostando que o futuro da leitura é apenas um clique")
O TEXTO DE ALBERTO DINES
A revolução dos leitores digitais
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
Por que razão os jornais e revistas entregam-se com tanto prazer aos vaticínios sobre o seu fim? É masoquismo? Vocação suicida? Ou é mais um modismo que pretendem impingir num mundo comandado pela velocidade e obsolescência?
O mais recente gadget, brinquedinho eletrônico, é o leitor digital de livros anunciado há dias nos Estados Unidos e apresentado em grande estilo na Feira de Livros de Frankfurt. O que chama a atenção, pelo menos deste Observatório, é o facciosismo do nosso noticiário: ninguém discute as deficiências naturais e inevitáveis da nova tecnologia. Nossa mídia pintou a traquizonga - como a chamou João Ubaldo - como se fosse definitiva. Não é verdade.
O aparelho ainda é tosco, dizem os especialistas, a leitura ao sol é complicada pelo reflexo mas ninguém lembra que a tecnologia usada é a mesma dos celulares que, como sabemos, no Brasil deixa muito, mas muito a desejar. Mas qual o veículo que tem a coragem de questionar a qualidade da nossa telefonia móvel?
E a portabilidade? Este leitor digital de livros oferece a mesma portabilidade de um pocket-book? O prazer de folhear poderá ser substituído pelo prazer de rolar continuamente algumas linhas no monitor?
É possível que as deficiências dos protótipos sejam corrigidas, principalmente pelas marcas concorrentes mas uma coisa é certa e definitiva: quando se trata de vender novidades e modismos a mídia não questiona, não duvida. O que funciona é o instituto do oba-oba. Este Observatório acredita que os cientistas e inventores têm compromisso com suas certezas mas o papel do jornal é duvidar. Sempre.
Fonte: Observatório da Imprensa, Programa n.º 525, 20 de outubro de 2009. Disponível em http://observatoriodaimprensa.com.br/oinatv.asp
d.b; co-editor pentelho e filho de paulo dagomé. ou seja: ele é culpado indireto pelas pentelhagens do blogue. dagome é infantil e não aceita perder. eu sei disso porque eu também sou infantil e não aceito perder... por isso a gente fica compentindo quem faz mais pitacos no blog. p.e.(pós-escrito): danny, não ouse corrigir minhas letras minúsculas. elas fazem parte do meu plano megalomaníaco de refurmular a gramática e abolir as arrogantes letras maiúsculas. mas corrija os demais erros que certamente vai encontrar, por favor. |
De Brasília (DF)O dia do perdão
Perdão, perdão, perdão. Era tudo o que conseguia dizer - perdão, perdão, perdão - enxugando as lágrimas entre uma facada e outra.
O amor
Amaram-se como se fosse a primeira vez. E era a última.
Canção para acordar os mortos
Exaustas, enlouquecidas, as cigarras cantaram por sete dias a fio - mas os homens só escutaram quando as águas já cobriam seus ouvidos.
Mulherzinha
Lembra da escola, quando a gente te chamava de mulherzinha, te dava porrada, te comia à força? Já naquela época eu te sonhava dentro de mim.
Solidão (nº 2)
Uma semana depois, a televisão cansou de olhar minha cara, saiu por aquela porta e nunca mais voltou.
Procissão
Se é pecado, por que diabos Deus botou uma bunda dessas rezando e rebolando na minha frente?
Certeza
Tudo é incerto. Num instante estamos aqui, e já no instante seg
José Rezende Jr. publicou dois livros (de contos em "tamanho normal"): A Mulher-Gorila e Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor), ambos pela 7Letras. O primeiro, já esgotado, pode ser lido/baixado em http://www.joserezendejr.jor.br/ (jornalismo&literatura).
Fale com José Rezende Jr.: joserezendejr@terra.com.br
Sarau Radical de outubro - Ralouin tupeenickeen
Postado por db - o co-editor pentelho em Cartazes e Panfletos, Eventos - Realização, Sarauradical
Vinícius Borba e Diga How se apresentam para o Ministro da Cultura no T-Bone
Postado por Vinícius Borba


Vinícius Borba - Poeta e cronista, do grupo Radicais Livres S/A, de São Sebastião DF. Promove saraus poéticos e musicais, misturando estilos artísticos há mais de seis anos no DF e Entorno. Maiores intervenções na carreira: Feira do Livro de Brasília(25ª e 27ª Edições), assíduo membro no Sarau da Tribo das Artes e produtor e apresentador do Sarau Radical, tradicional evento cultural com seis anos de existência, e periodicidade mensal em São Sebastião e outras localidades;

d.b; co-editor pentelho e ex-habitante da "Senzala", que virou depósito e residência dos Chan (Nigel Chan e Josélia Chan). |
Quando eu era garoto e morava numa cidade não muito pequena do interior da Bahia, fundei, em parceria com uma das pessoas mais inteligentes que conheço, o meu amigo Zé Dias, uma “entidade” a que demos o nome de ASD, que significava singelamente: Associação Secreta de Detetives.
Fãs de Batman e Robin, sonhávamos com o dia em que teríamos um lugar secreto para guardar os vários apetrechos que íamos comprando aos poucos - canivetes, binóculos, cordas, lanternas - até chegar ao nosso próprio carro personalizado, passando antes, é claro, por walkie talkies que falariam a longa distância. Sonhávamos com o milagre do celular. Não sei com que argumentos conseguimos convencer uma garota de uns 22 anos a ser a secretária da ASD. Ela recebia telefonemas e recados enigmáticos de um ou outro de nós, repassava a quem indicávamos, anotava o que pedíamos, marcava reuniões às quais só nós dois comparecíamos e nós jurávamos que ela não sabia o que estava escrito naqueles bilhetes (Até o dia em que descobrimos que o pai dela era detetive de verdade e ensinara a espertinha o código que usávamos e que supúnhamos indecifrável até pela SS nazista) Com o tempo adquirimos uma série de objetos ultranecessários ao nosso ofício: uma boa lanterna, uma bússola vagabunda, uma faca de pescador, alguns apetrechos e já tínhamos ideia de quantos meses seriam necessários para comprar os tão desejados e necessários walkie talkies. Escondíamos os objetos menores em furos que fazíamos nos muros da escola, em lugares recônditos, e todos os dias após a aula, pé ante pé, passávamos para ver se ainda estavam lá.
Compramos um livro que ensinava uma técnica de caratê e praticávamos depois da aula até escurecer e tínhamos certeza de que ficaríamos quase tão bons quanto Bruce Lee se treinássemos bastante. Adquirimos “O melhor Vendedor do Mundo”, de Og Mandino, e “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, de Dale Carnegie, quando não sabíamos o que era auto-ajuda. Ouvíamos música popular instrumental, tocada por aquelas big bands americanas, líamos tudo que nos aparecia pela frente sem nenhum critério e nos achávamos eruditos. Tínhamos certeza absoluta de que éramos os caras mais inteligentes da escola, mas nunca perdíamos tempo tirando notas acima de 7, pois tínhamos mais o que fazer. Quando eu repeti o 2º ano foi um deus-nos-acuda lá em casa. È que a minha preocupação era tirar nota média e eu acabei vacilando. Economizávamos como loucos para assinar o jornal "A Tarde" (Um dos melhores da Bahia) (esqueci de dizer que somos baianos e tudo isso se passou em Vitória da Conquista, a melhor cidade do País) e parecer informados. Imitávamos a SHIELD, uma revista em quadrinhos da Marvel e a logo da ASD era inspirada no escudo daquela organização. Adorávamos o "Homem de Ferro" e sua corporação. O "Planeta Diário" era um sonho. E tínhamos certeza de que teríamos a amizade do delegado da cidade e o chamaríamos na intimidade de Gordon.
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Os Radicais Livres levaram ao extremo a ideia de agrupamento secreto ou não secreto, atuante e organizado, que acalentei na adolescência. Os Radicais Livres, que a princípio chamei de Ordem dos Templários, até perceber no Google que havia milhares de sítios e agrupamentos com esse nome, são minha razão de viver. Minha melhor ideia. Meu melhor poema de amor. Meu time do coração. Minha cachaça. Meu pó. Minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia. Meu sex and drugs no episódio quatro do Radical Rock.
E tudo que imaginei para a ASD virou uma estranha e maravilhosa verdade com os Radicais. As pessoas falam de nós em todo o Distrito federal como “a coisa” underground do momento, um negócio contracultural, um fenômeno paranormal, um mito, um misto de punks, nerds, beats, gays, bad boys, anarquistas, bichos grilos, mistificadores e afins.
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Nosso slogan é “A tecnologia da Mistificação”.
Nosso grito de guerra é “Se lasque, doido”.
Nosso lema: “Quem conosco não ajunta, espada”.
A frase abaixo do nome do nosso jornal é “Antes que os homens virem macacos”
O mote do Radicalrock é “Um cons(c)erto na periferia”.
E para não chocar os mais sensíveis a frase no nosso portfólio abaixo do nosso nome é “A arte como caminho...”
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Amo ser Radical Livre. Sempre achei que formávamos uma confraria espontânea, detentora da capacidade de debater qualquer assunto, com tal arrebatadora paixão que pudesse parecer, a quem nos ouvisse de longe, que estávamos a defender a própria vida naquela absurda argumentação. Porém, mal nos afastávamos uns 30 metros do lugar da disputa e já estaríamos a falar putarias benfazejas, sem pejo ou sentimento de culpa, pelas esquinas enviesadas da nossa suburbana San Sebas.
Achei que, deste fervente caldeirão literário, surgiria, é claro, o novo movimento cultural de Brasília e certos caras - que não posso citar aqui, para não inflar os egos já devidamente assoberbados dos mesmos - viriam à boca de cena carregados de uma pletora de erudição inconfundivelmente periféricas, dado o desordenamento mental natural em função da origem dos meliantes, porém, que vigor! E que tenacidade nos grunhidos prenhes de lucidez que estes selvagens ilustrados bradariam pelos descampados do altiplano.
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Qual o quê! Uns tantos ditos Radicais dotados de ultrassensibilidade disseram não poder sofrer com tanta maledicência e, aos poucos, foram afastando-se do malfadado convívio com a língua de trapo daqueles que julgavam ser exatamente essa seca ironia, o mais fino biscoito produzido pelos Radicais Livres. O espírito revolucionário que movia essa parte dita diabólica do grupo e que nunca foi entendida pelos ultrassensíveis era, na verdade, a que construía, a que movia, a que tombava montanhas, a que revirava ruínas à cata de estranhos tesouros, a que se entranhava trágica no estudo da condição humana, sem medo de cair no ridículo de não encontrar Deus no fim da extinta luz do túnel inesgotado, por serem donos de uma natureza brutal nunca jamais nem never more vencida pelos embates da guerrilha onde empunhavam corajosamente a espada cega da língua portuguesa em seus poemas e canções de próprio cunho.
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Fomos, por conta dessa falta de pudor ideológica que nos guia, lançados como Daniel na caverna dos leões e lancetados no canto da jaula da luta partidária, pelos guardiões da verdade inexistente, por desrespeitarmos a ordem imposta pelos detentores da bandeira dita socialista já manchada pelo barbudo e outros asseclas pelo pragmatismo que permeia as maiores conquistas eleitorais dos últimos anos e, descortinando um novo horizonte de possibilidades enviesadas pela desestrutura da nossa desdidática desprovida de método, não sabendo que era impossível o que almejávamos, nós, os historicamente desalinhados, os ideologicamente desaparelhados, os metodologicamente desamparados, os filosoficamente descamisados, os boquirrotos, os palhaços, os bobos da corte, tornamo-nos, a pouco e pouco, a elite cultural do gueto sem saída.
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A preocupação com arte e cultura que deveria ser a tônica das nossas atividades perdeu força para as elucubrações político-partidárias e ideológicas. A possibilidade dos membros terem variadas posições partidárias indo da esquerda à direita sem maiores empecilhos passou a ser heresia sendo vedada a mim, inclusive, a possibilidade de me filiar a um partido por conta de mesquinharias partidárias. Passou-se disto a um verdadeiro proselitismo em busca de fortalecimento de uma “tendência”. E então éramos dois monolíticos blocos lutando por posições dentro da Associação.
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Chegou-se então a uma encruzilhada e eu, abrindo mão da minha naturalíssima verve diplomática, devo ser sincero, franco e rijo. Eu percebi que o mundo está aberto para nós, ávido de ser conquistado e regido, quando disse no hit “A Bola Azul” que “Serafins povoam minha solidão desgovernada, mas eu só vejo sombras e fantasmas desembainhando espadas” e denunciei que nós, habitantes do gueto, insistíamos em permanecer nesta eterna e maldita autovitimização, onde o dito “burguês” “em tese” nos exploraria e nos manteria debaixo do seu tacão pelo puro prazer de nos atazanar.
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Palhaçada! Se nós o que queremos é ser burgueses e comprar um carro zero à vista! Babaquice! Paralisados no esquema que nos auto-impusemos, vivemos na órbita dos ídolos passadistas da bossa nova e da MPB e esquecemos que a melhor canção é a que pulsa inédita da nossa boca ressequida e o melhor poema é o que nós mesmos compusemos para declamar cheios de orgulho no palco de madeirite erigido por Mão-de-Aço no lugar onde outrora havia um pelourinho na frente de uma senzala segundo Edvair Ribeiro e hoje se ergue um altar à deusa contradição.
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Faço a revolução com meus companheiros há sete anos! Desde o momento em que pusemos aquelas duas caixas de som que mais pareciam duas casas de marimbondo na rua e inventamos de ressuscitar a palavra sarau por esses rincões que fazemos a revolução. E, portanto, ela não virá porque já veio.
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Astuto, cauteloso, romântico, ilustrado e soberbo, um grupo mameluco se pôs de pé às margens do rio São Bartolomeu na luta pela liberdade de ocupar os espaços públicos e falar brava e serenamente os mais belos poemas da língua pátria sem se importar com o déspota de plantão. E não há tempo para parar. Não há tempo para analisar se o que foi dito está direitamente dito ou se a desordem perpassou de alto a baixo o feito prejudicando o entendimento. Não espero nem mais um minuto por quem quer que seja que não tenha em mente que este é um movimento de libertação das amarras que nos prendem ao conformismo. Abaixo às imposturas! Abaixo à covardia! Abaixo à tergiversação! Avante, companheiros da primeira e da última hora. Franqueza e lealdade serão nossas bandeiras. Mas não nos deteremos diante do populismo que grassa em nosso meio. Se lasque, doido. Eu quero é sangue. Eu quero queimar o bezerro de ouro do capitalismo no pátio do Aquário Bar. Eu quero enforcar os detentores dos podres poderes com suas próprias gravatas. Eu quero tomar o poder à força das nossas palavras e dá-lo aos destituídos de honra da comunidade. Vamos comer o banquete dos poderosos com as mãos. Vamos por os cotovelos descascados sobre a mesa dos déspotas e riscar poemas sobre a mesa de mármore dos príncipes de mentira que teimam em reinar sobre nós, os verdadeiros donos de tudo. Vamos ocupar sorrateiramente todos os espaços que os vacilões deixarem vazios, com inteligência, educação, competência e qualificação. Vamos bailar a valsa em seus salões e saborear seus petiscos misturando-nos ao ponto de confundirmo-nos com eles e, quando menos esperarem, zás.
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Suporto tudo com calma e serenidade. Vide minha canção “O Minotauro Protestante” que está postada no meu blog dagomeh.blogspot.com. Ali descrevo o alto grau de paciência que me acomete desde sempre e isto é fato comprovado por todos que me conhecem. Ali descrevo que a única coisa que me tira do sério é quando dizem que eu erro. Pois eu não erro. Eu não erro. Eu uso tons dissonantes. Mas há uma outra coisa que me faz perder a calma. É a burrice. Não a ignorância, que isso todos seremos sempre, por mais que aprendamos. Falo da incapacidade de entender que assola um sem número de pessoas que nos rodeiam. Como aquele personagem de programas de humor, o Saraiva, eu não suporto imbecilidade e hoje, a meu ver, este é um dos maiores problemas dos Radicais Livres. A falta de leitura. A falta de estudo. A falta de entendimento do que se lê e se estuda. A falta de compreensão estética. Um outro problema é que eu não sei como acabar com esse problema. Um outro problema é que eu não posso dizer isso sob risco de ser tachado de preconceituoso. Um outro problema é que eu não gosto de parecer preconceituoso. Adoro parecer politicamente correto. Mas não sou. Eu penso barbaridades e teço maledicências, mas tudo em segredo. Eu sou mau.
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Penso em voltar para Bahia e recomeçar a ASD. Acho que ainda encontro minha velha lupa ou meu manual de caratê nos furos do muro da minha velha escola. Acho que sei onde meu amigo Zé mora. Devo ter o suficiente para comprar aqueles walkie talkies...
É TUDO NOSSO!
O crepúsculo do estamento dos "formadores de opinião", hoje atropelado pela revolução comunicacional e a afluência das camadas da base da pirâmide social, é uma das feridas expostas da elite dominante. Nesse novo contexto, nós, contistas, cronistas, poetas, escritores, atores, pintores, músicos, dançarinos e cineastas de São Sebastião (DF), reunidos na Associação Sociocultural Radicais Livres, CNPJ 08.981.522/0001-23, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, acreditamos que o desenvolvimento da cultura é elemento vital da transformação social. Todo jovem, pois, deve ser atingindo com o poder esmagador da arte, armada de muita compreesão, engatilhada com fé e disparada com amor. / Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião dos Radicais Livres e são de total e exclusiva responsabilidade de seus autores. / Editores: Paulo Sérgio Sena Santos Júnior ("d.b.") e Daniel Pereira da Silva. SLD.
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